quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Atrás da porta

Desconstruí meu mundo quando resolvi sair de casa.
O que antes era parte do dia-a-dia, agora já não é mais.
Minhas roupas, sapatos, cartas, revistas, cadernos e discos. Tudo ficou pra trás. Sabia que ia me contorcer de dor ao tentar escolher entre o que viria comigo e o que ficaria para trás. Melhor que tudo ficasse.
Fui, aos poucos, decapitando certas manias.
O cinzeiro que ficava na cabeceira da cama, o rádio desligado por falta de pilha, os textos inacabados espalhados pela escrivaninha. Minhas pantufas surradas ainda estavam ao pé da cama e os discos se aglutinavam na estante próxima dos livros. Pareciam duelar o espaço que ali detinham e que não era tão grande.
A cama estava finalmente arrumada, apesar de ser atarefa mais chata de todas para mim. Um cobre-leito preto e branco dava um ar elegante e melancólico para o meu antigo refúgio.
Nunca pensei que teria tanto sentimento encharcando os móveis do meu quarto. Não parecia ser real até, de fato, ser.
E doía.
Muito.
Porque não se tratava simplesmente de uma mudança, mas de um corte permanente e profundo que não oferecia outra alternativa a não ser a despedida.
Quando senti as primeiras lágrimas brotando em meus olhos, fechei a porta.
Do lado de dentro, um silêncio triste parecia despertar uma sinfonia de vozes que clamavam pelo meu retorno.
Mas já não era possível.
Do lado de fora, estava eu.
Ainda sem fôlego, com a chave pendente entre os dedos.
Quando saí de casa estava, na verdade, saindo de mim.