segunda-feira, 31 de outubro de 2016

No dia em que fui roubada

 Resultado de imagem para mafalda


Há exatas duas semanas atrás, numa segunda-feira indo para a faculdade fui roubada. Nem sei exatamente como isso aconteceu. Na verdade, eu nem cheguei a ver o meliante. Só me dei conta da falta do meu objeto roubado quando cheguei na faculdade.
Fiquei horrorizada ao perceber que me levaram algo que não tinha valor algum que não fosse ideológico. Algo que não poderia ser trocado por dinheiro, que foi comprado por meros cinco reais numa tarde quente de primavera num breve intervalo durante a minha orientação de monografia.
Levaram-me mais que um simples objeto, levaram-me o direito de me expressar politicamente.
Naquele momento, fui silenciada, perdi o direito de opinar.
Raptaram-me uma das minhas verdades pessoais em discordar com o pensamento hegemônico que tem prevalecido na cabeça de muitos brasileiros. Calaram minha voz ao me negar o direito de dizer o que penso e fazer valer a minha própria voz.
Acima de uma Mafalda indignada com sua pequena mão erguida para o alto podia-se ler a frase que vem ecoando na minha cabeça há alguns meses.
"FORA TEMER!"
Era o que estampava um broche, ou como dizem atualmente um bottom, que eu levava na minha mochila laranja.
Como eu posso ter certeza de que ele não caiu? Por conta da forma como eu preguei o alfinete, exatamente para tentar impossibilitar que ele fosse removido da minha bolsa. O que acabou acontecendo de qualquer forma.
Se quem fez isso tinha intenção de se apoderar para uso pessoal, shame on you.
Se estou criticando um governo corrupto e roubo, estou sendo conivente e acabo apoiando aquilo que eu repudio.
Agora, se quem fez isso está do lado do impeachment e, consequentemente, dos golpistas, esse ser das trevas é um golpista triplamente qualificado. Primeiro porque tomando o que não lhe pertence está realizando um atentado à propriedade privada. Segundo por silenciar o meu direito de me expressar politicamente. E terceiro e ultimo golpe se dá porque, como diz o ditado, filho de peixe, peixinho é, logo, cria de golpista, golpista é.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Na estrada

 Imagem de road, travel, and tree

Detesto ter que admitir isso, mas tenho um coração bem mais mole do que eu gostaria. Sou o tipo de pessoa que se emociona com facilidade ao ver certas cenas de novela ou mesmo ao ler certos trechos de livro. Sempre fui romântica e, apesar dos clichês, de achar grande parte das pessoas dramáticas e de revirar os olhos na frente dos outros, nunca deixei de ser.
Sempre sonhei com o dia em que eu me casaria com o homem perfeito, teria um apartamento no alto de um prédio e poderia compartilhar com ele as felicidades próprias do amor e dos futuros filhos. Seria bem sucedida, uma mulher elegante, magra e com um marido a la Reinaldo Gianechini do meu lado, me levando para passeios na Europa, me enchendo de presentes e me dizendo que eu era a mulher da sua vida.
Bem, isso faz parte de uma idealização que a gente acaba construindo inconscientemente quando passa a infância assistindo filmes de princesas e novelas brasileiras. Há sempre uma luz no fim do túnel, há sempre um final feliz pra ser alcançado.
Será?
Apesar dos meus poucos 21 anos já vivi tanta coisa que, agora, acho difícil acreditar. Vi meu coração sendo arrancado de mim brutalmente quando descobri que minha avó materna, com quem convivo desde que me conheço por gente, tinha Alzheimer. Senti o peso da traição quando meu avô saiu de casa. Me recuperei um pouco, mas logo que eu achei que estava bem, ao descobrir numa amizade o amor, tive que me mudar. Desde então nos encontramos a cada dois ou três meses. Enfrentei uma depressão profunda ao sair de casa para seguir meu sonho de ser jornalista. Convivi com uma família que, apesar do mesmo sangue, não me pertencia.
E agora, a poucos meses de me formar, sinto um aperto no peito e um nó na garganta. Ao ver tudo o que eu consegui enfrentar meus próprios demônios, mesmo sabendo que eles não deixarão de existir - mas terão menos força. Ao mesmo tempo me sentir amedrontada com o futuro incerto que vem pela frente. Eu já não idealizo a vida como antes, nem sou inocente a ponto de acreditar em finais felizes.
Na verdade eu tenho acreditado cada vez mais que a felicidade não é um momento permanente na nossa vida, mas um estado de espírito. E é claro que ele vai depender de nossas escolhas, por menores e mais insignificantes que elas possam parecer.
Eu não sei quantas tempestades vão surgir na minha frente, quantas vezes eu vou ter vontade de pular do barco ou mesmo que rumo essa viagem vai tomar. Isso porque a vida não é um caminho único e certeiro, mas um caminho permeado por outros caminhos e milhares de possibilidades.
Cabe a nós fazer as escolhas certas para nós mesmos. E só assim, quem sabe, experimentar um pouco dessa tão sonhada felicidade, transformando, assim, o final feliz num verdadeiro recomeço.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Só hoje

 Imagem de fernanda


Hoje foi um dia difícil.
Na verdade, todos os dias têm seu tom de dificuldade. Só que existem aqueles nos quais os problemas parecem ser maiores que a nossa força de atravessá-los.
Briguei, chorei, fui ignorante, fui ignorada, a dor me cortou e talvez eu tenha usado meus cacos para atacar algumas outras pessoas.
A dor sempre nos coloca para repensar.
Hoje um amigo canino se foi.
Um pedaço do meu coração foi levado junto com ele.
Eu realmente quero aprender a lidar com as ausências e perdas que a vida, uma hora ou outra, nos impõe.
Mas hoje não.
Hoje eu não quero deixar de chorar para extravasar a tristeza que me machuca. Eu não quero me fingir de forte nem ser tomada como insensível perante a dor alheia.
Hoje eu não quero ser melhor nem pior.
Não quero sequer me esforçar para ser nada além do que eu sou.
Só hoje.
Amanhã há de ser outro dia.

terça-feira, 3 de maio de 2016

Em busca do respeito perdido

Lembre-se: Nada te dá o direito de pôr o dedo na cara de ninguém

Pra ser bem sincera, a forma como as pessoas têm lidado com o cenário político brasileiro atual tem me preocupado bastante.
Tempos atrás, compartilhei no meu facebook um questionamento relativo ao apoio desmedido quanto à necessidade de prender o ex-presidente Lula, enquanto políticos como Aécio Neves e Eduardo Cunha não eram tratados com as mesmas mãos de ferro. E recebi um comentário extremamente agressivo de um tio da minha mãe, em que ele me chamava de imbecil por, supostamente, acreditar que Lula não teria culpa no cartório. Detalhe: horas depois o comentário foi apagado.

Mas eu gravei um print no celular. Infelizmente, seu comentário ainda sobrevive na memória eletrônica do meu celular, e na minha.
Falo isso não por rancor, nem raiva de uma atitude impensada e agressiva como essa.
Falo isso por ficar triste ao ver que, primeiro, as pessoas distorcem o que a gente diz e, segundo, por ver o quanto o partidarismo consegue cegá-las a ponto de desfazer amizades e agredir verbalmente até mesmo parentes de sangue.
Parece que um ódio ao oposto, ao diferente, tem se espalhado de forma abrupta pela nossa sociedade, a ponto de desfazer laços, quebrar relações e, principalmente, dissolver o respeito entre as pessoas.
É preocupante que as pessoas tomem partido, seja ele político, partidário, religioso, e usem dele para tentar se sobrepor à opinião contrária.
Eu tenho clareza de tudo o que vem acontecendo no Brasil, principalmente por conseguir abrir minha mente o suficiente para ver uma corrupção que vem, não só de um lado, mas de vários.
Mas se você acredita mesmo que a resolução para tudo está, por exemplo, em tirar uma presidente que não cometeu nenhum crime de responsabilidade legal do poder, tudo bem. Se você acha que o impeachment da Dilma vai mudar o país para melhor, ótimo. Se você acha que o Lula é o cara mais picareta e merece todo tipo de humilhação por conta disso, beleza. Se você acredita que tirar a Dilma e colocar um cara como Michel Temer em seu lugar vai resolver a crise que assola o país, maravilha!
Só se lembre que ninguém tem obrigação de achar o mesmo.
E mais que isso, você não é melhor e muito menos superior a ninguém por pensar dessa forma. A liberdade de expressão, afinal de contas, existe exatamente pra isso. O que não te dá o direito de esculhambar publicamente alguém que pense diferente de você.
Tá aí! Algo que realmente tá em falta: respeito.

Isabela Santiago

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

A ignorância disfarçada

Imagem de burro


Não sei porque ainda me surpreendo quando vejo campanhas de cunho feminista sendo criticadas nas redes sociais. Como se pode admitir argumentos contrários aos seus quando não se pode enxergar além? Quando digo isso penso na imagem do burro, nome de animal que é usado como adjetivo para pessoa sem inteligência. Na verdade, o que lhe falta não é inteligência. Basta lembrar que, por ter uma visão panorâmica, ele é obrigado a usar uma viseira que faz com que ele só enxergue o que está na sua frente. Logo, as sombras e os lados, que poderiam espantá-lo ou fazê-lo mudar repentinamente de posição, são eliminadas. O burro tornou-se, portanto, sinônimo para ignorância, afinal de contas, ele já não pode ver além, tal como algumas pessoas. Falo isso pensando, por exemplo, na cultura do estupro. Conversa de feminista? Creio que não.
Segundo pesquisa realizada pelo Datafolha com mais de 100 mil pessoas, 67% da população tem medo de ser vítima de agressão sexual; o percentual de mulheres que têm esse temor é de 90%, contra 42% dos homens. Isso mostra, no mínimo, que a mulher tem muito mais medo de ser violentada sexualmente que o homem. 
E o que será que faz com que a mulher tenha mais medo que o homem? Talvez o fato dela ser assediada sexualmente em quaisquer ambiente, e isso ser tido como algo normal. Ou talvez o fato dela não poder se vestir como quer, já que, estando "vulgar", ela está, na verdade, pedindo para que os homens a devorem com os olhos, e as vezes, com as próprias mãos. Ou ainda que o estupro é romantizado como algo bom, natural e prazeroso. Tudo isso faz parte da tal cultura do estupro, uma normalização de um crime que fere o corpo e a alma de quem está, de alguma forma, indefeso.
Para dar apenas dois exemplos fictícios, penso nas personagens de Camila Queiroz em Verdades Secretas, a Angel, e a mais recente personagem de Alice Wegmann em Ligações Perigosas, Cecília. De formas diferentes, ambas foram praticamente estupradas e isso foi romantizado pela mídia. Em hipótese alguma achar que ser forçada, seja através da força física ou por algum tipo de chantagem ou pressão psicológica, é algo natural ou benéfico para qualquer pessoa. É absurdo pensar que tudo isso é normalizado e continuamos repetindo comportamentos que só fortalecem esse tipo de coisa.
É absurdo nós mulheres acharmos que é errado vestir esta ou aquela roupa por motivos que não sejam desconforto com o tamanho/textura/modelo/ambiente (afinal, ninguém merece vestir uma roupa apertadíssima ou super folgada, ou que dê coceira, ou que desvalorize o corpo, ou que não seja adequado para o ambiente - cê não vai usar biquini numa igreja nem vestir-se dos pés à cabeça na praia, né, vamos combinar). É absurdo achar que a mulher que se veste de forma sensual, seja lá o que isso signifique, seja uma forma dela dizer que está buscando um parceiro sexual. E mesmo que isso seja verdade, de forma alguma isso dá o direito a qualquer homem de mexer com ela. É absurdo taxarmos de puta, de vadia, de piriguete a mulher que se veste como ela quer. E é mais absurdo ainda saber que eu, como mulher, por vezes, ainda acredito nisso!
Mulher não foi feita para isso ou para aquilo! É ela que tem que decidir quem ela quer ser, com quem ela quer ficar e como ela deve tratar seu próprio corpo! Não cabe ao homem nem a ninguém fazer essa escolha que é somente dela. E não se pode também tratar a vítima como culpada! Nenhuma mulher pede pra ser estuprada, estando de burca ou nua. Se fosse assim, milhares de mulheres no Oriente Médio não sofreriam agressão cotidianamente mesmo debaixo de metros de pano preto.
Não é a mulher a culpada pela violência, mas a sociedade como um todo por não aceitar essa realidade e ainda romantizar tal violência como uma forma de ajuda, de carinho, de amor. É fácil, quando somos tomados pela ficção da TV, por exemplo, acreditar que Cecília e Angel se tornaram mulheres quando foram na verdade abusadas por homens que não tinham o menor pudor, respeito e dignidade, nem com eles nem com ninguém.
Mas eu ainda tenho esperança de que muita gente ainda possa retomar as rédeas da própria vida, a ponto de recuperar a visão. E enxergar, quem sabe, um pouco além...